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Quando uma história começa a ganhar rosto

  • Foto do escritor: Jânsen Leiros Jr.
    Jânsen Leiros Jr.
  • 4 de abr.
  • 6 min de leitura

Em entrevista à Plano Sequência, Laura Menezes fala sobre casting, presença e o modo como a Vetor transforma personagens em atmosfera viva.


Em muitas produções, o casting entra quando o personagem já existe no papel e só falta encontrar quem o interprete. Na Vetor, não. Ali, o processo começa antes, mais fundo e de maneira mais arriscada: o rosto escolhido não apenas representa um personagem — ele pode influenciar a forma como esse personagem será imaginado, escrito e lembrado.

É por isso que o trabalho de Laura Menezes, diretora de casting da Vetor, não se limita a selecionar perfis. Ele participa da atmosfera das obras, interfere no imaginário do autor e ajuda a dar corpo a um ecossistema narrativo em que literatura, imagem e presença crescem juntos.

Nesta conversa com a Plano Sequência, Laura fala sobre o que significa fazer casting quando a história ainda está em combustão, explica como a Vetor vem formando seu catálogo de atores e atrizes e dá pistas de como esse elenco começará, em breve, a surgir diante do público.

 

Por Maju Verlain


Plano Sequência:

Laura, para começar do começo: o que faz, de fato, uma diretora de casting?

Laura Menezes:

Ela transforma personagem imaginado em presença possível. Parece simples, mas não é. Porque personagem não é só aparência. É energia, atmosfera, contradição, peso, silêncio.

Na prática, a diretora de casting lê a obra profundamente, entende o que aquele universo pede e começa a procurar pessoas capazes de sustentar essa verdade. Não basta parecer com a ideia. É preciso acender a ideia.

Plano Sequência:

Quais são, objetivamente, as principais atribuições de uma diretora de casting?


Laura Menezes:

Ler bem a obra, entender seu clima, construir perfis, pesquisar possibilidades, testar coerências e proteger o conjunto. Isso é central.

Casting não é montar uma coleção de rostos interessantes. É perceber quem realmente pertence àquela narrativa e quem, por mais impactante que seja, desorganiza o todo.

Plano Sequência:

E quais são os maiores desafios dessa função?

Laura Menezes:

O maior desafio é reconhecer em pessoas reais algo que, às vezes, ainda nem está totalmente resolvido no texto. Há personagens que surgem primeiro como sensação.

Outro desafio é escapar do óbvio. O literalismo empobrece. A idealização também. O personagem forte não é o mais perfeito. É o que parece vivo.

Plano Sequência:

No caso específico da Vetor, existe uma diferença importante em relação ao casting tradicional, não?

Laura Menezes:

Existe, e ela é enorme. No casting tradicional, muitas vezes você recebe um personagem já mais estabilizado e trabalha para encontrar quem o traduza. Na Vetor, frequentemente o casting entra muito antes disso, quando a obra ainda está se formando por dentro.

Isso exigiu de mim um tempo muito maior de imersão no conceito, no formato das narrativas e na lógica do projeto. Eu precisei entender não só personagens, mas o modo como a Vetor cria. Porque, aqui, o rosto certo não chega apenas para servir à obra. Ele também pode retroalimentá-la, influenciar o imaginário do autor e reposicionar a própria percepção do personagem.


Plano Sequência:

Como a Vetor faz para que o casting esteja afiado com a obra que ele mesmo retroalimenta?

Laura Menezes:

Com imersão real. Não dá para fazer isso superficialmente. Eu preciso acompanhar o espírito das obras, a linguagem, o campo emocional, as tensões e até os deslocamentos internos que cada história provoca no autor.

Na Vetor, o casting não pode ser tratado como etapa isolada. Ele precisa estar afiado porque entra numa zona delicada: a de dialogar com personagens ainda vivos no processo de criação. Se o olhar for raso, a escolha pode empobrecer. Se for preciso, a escolha pode expandir a obra.

Plano Sequência:

O que torna tão difícil formar um casting capaz de traduzir uma história?

Laura Menezes:

Porque ninguém traduz uma abstração perfeitamente. O que buscamos é aderência profunda. Um personagem não é só um rosto. É relação, tempo, passado, presença, conflito.

E tem outra coisa: ninguém funciona sozinho. Às vezes, uma escolha individual parece excelente, mas, quando entra em contato com os outros perfis, rompe a harmonia do universo. Bom casting também é composição.


Plano Sequência:

Quantos atores e atrizes há hoje no catálogo da Vetor?

Laura Menezes:

Hoje, a Vetor já trabalha com um catálogo em formação, cuidadosamente curado, que vem crescendo à medida que as obras pedem novos corpos, novas presenças e novos contrastes.

Mais do que número por número, o que importa é que esse catálogo já começa a ter densidade suficiente para revelar uma identidade própria. Não estamos juntando pessoas aleatoriamente. Estamos formando um campo de presenças que conversa com a alma das narrativas.

Plano Sequência:

O casting Vetor tem núcleos fechados por obra?

Laura Menezes:

Tem núcleos, sim, porque cada obra pede uma temperatura humana própria. Há histórias que exigem um tipo de densidade, de beleza, de desgaste, de sobriedade. Isso cria campos mais fechados.

Mas a Vetor também trabalha com a ideia de ecossistema. Então alguns nomes podem circular, reaparecer ou dialogar com universos diferentes, desde que isso faça sentido artisticamente. Não é uma lógica engessada. É uma lógica orgânica.


Plano Sequência:

Então um casting pode ser decisivo até para uma trama literária?

Laura Menezes:

Completamente. Quando a narrativa tem vocação visual e simbólica, um rosto certo pode mudar muita coisa. Ele pode dar mais espessura ao personagem, alterar a forma como ele é percebido e até influenciar o modo como certas cenas passam a ser escritas.

Em alguns casos, a presença encontrada faz o personagem respirar de outro jeito. E, quando isso acontece, não estamos mais falando de decoração de obra. Estamos falando de escavação narrativa.

Plano Sequência:

O público costuma reduzir casting à aparência. O que existe além disso?

Laura Menezes:

Existe quase tudo. Aparência importa, claro, mas como linguagem. Um rosto pode carregar desgaste, elegância, ameaça, melancolia, dureza, promessa.

O que me interessa é presença. Há pessoas belíssimas que não sustentam mistério. E há rostos discretos que, quando entram em cena, parecem já trazer uma história inteira.

Plano Sequência:

Quais erros mais comprometem um casting?

Laura Menezes:

Escolher por padrão, por facilidade, por sedução pessoal ou sem pensar no conjunto. Esses erros são fatais.

Também compromete muito confundir adequação com beleza plástica. Nem toda história suporta rostos excessivamente prontos. Às vezes, a força está justamente no que parece mais humano, mais irregular, mais verdadeiro.

Plano Sequência:

O que você busca quando sente que encontrou a pessoa certa?

Laura Menezes:

Uma sensação de encaixe inevitável. Não porque seja previsível, mas porque tudo começa a conversar ao mesmo tempo: aparência, energia, função dramática, mundo da obra.

É quando a pessoa não parece estar imitando o personagem. Parece, de algum modo, já carregá-lo.


Plano Sequência:

Como a Vetor pretende apresentar seu casting ao público?

Laura Menezes:

Gradualmente, mas sempre com intenção narrativa. A ideia não é simplesmente publicar rostos, e sim permitir que o público encontre essas presenças dentro da atmosfera da Vetor, conforme os núcleos das obras começam a se revelar.

Por isso, essa apresentação acontecerá por núcleo. Em vez de expor o casting como uma vitrine isolada, a proposta é fazê-lo surgir em entrevistas, materiais visuais, bastidores, apresentações editoriais e outros conteúdos que situem cada rosto dentro do universo ao qual ele pertence.

Esse movimento, inclusive, começa muito em breve com Entre Laudos, o primeiro projeto a ir ao ar. Será por meio dele que o público começará a conhecer mais de perto um dos núcleos da Vetor, acompanhando gradualmente a revelação de seu casting e sua interação com o Universo Vetor.

Plano Sequência:

O que uma pessoa precisa fazer para participar do casting Vetor?

Laura Menezes:

Antes de tudo, entender que a Vetor não procura apenas fotogenia ou perfil de mercado. Procura presença, coerência e potência narrativa.

Quando os movimentos de entrada forem abertos de maneira mais direta, isso será apresentado ao público com clareza. Mas, conceitualmente, o que interessa à Vetor é gente capaz de sustentar personagem, atmosfera e verdade — não apenas de caber numa imagem bonita.


Plano Sequência:

Entre os nomes do casting da Vetor, já existem rostos de maior destaque? E quando o público começará a vê-los em ação?

Laura Menezes:

Sim, alguns nomes já começam a se destacar internamente, tanto pela força de presença quanto pela aderência impressionante a certos personagens e universos.

E o público começará a vê-los em ação justamente nesse movimento que agora se inicia. A ideia é que a aparição desses rostos não aconteça como ficha técnica fria, mas como acontecimento narrativo. Eles não vão surgir apenas como elenco. Vão surgir como parte da experiência Vetor.

Na Vetor, o casting não ocupa apenas uma função técnica. Ele participa do nascimento visível das narrativas. A fala de Laura Menezes deixa claro que, ali, escolher um rosto não é preencher uma lacuna: é reconhecer uma presença capaz de sustentar atmosfera, conflito e verdade.

Talvez por isso o elenco da Vetor não deva chegar ao público como simples apresentação de nomes. Deve chegar como sinal de que as histórias começaram, enfim, a encontrar fisionomia.

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