Vetor - Conceitos e Narrativas
Histórias que investigam a condição humana.
Suspense psicológico, investigação e reflexão.
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Entre Laudos
Capítulo 16- A rua também lê
Rio de Janeiro — Irajá — Manhã seguinte
Juliana demorou alguns segundos antes de abrir a porta. Não havia ninguém do outro lado. Ela sabia disso porque olhara pelo olho mágico duas vezes. Na primeira, vira apenas o corredor. Na segunda, o mesmo corredor, a lâmpada branca acesa apesar da claridade da manhã e o capacho da vizinha um pouco torto diante da porta.
Nada.
Mesmo assim, ficou com a mão na maçaneta. Precisava comprar pão. Era só isso. Pão, leite e, se o dinheiro desse, café. Uma tarefa tão comum que em outro tempo não teria merecido sequer ser lembrada. Pegaria a bolsa, conferiria a chave, desceria, atravessaria a rua, compraria o necessário e voltaria.
Naquela manhã, sair parecia uma apresentação. Carlos estava sentado no sofá.
— Vai onde?
— Padaria.
Ele olhou para o relógio.
— Agora?
Juliana conteve a resposta que veio primeiro. Agora quando, Carlos?
Em vez disso:
— Está faltando pão.
— Eu posso ir.
— Não.
A palavra saiu rápida demais. Ele percebeu. Ela também.
— Por quê?
— Porque eu já estou pronta.
Não estava. Ainda procurava a chave dentro da bolsa. Carlos olhou para ela por alguns segundos.
— É por causa da matéria?
Juliana encontrou a chave.
— É por causa do pão.
— Não foi o que eu perguntei.
Ela fechou a bolsa.
— Eu sei.
Carlos desviou o rosto. Na mesa, o celular dele permanecia virado para baixo desde a noite anterior. O aparelho já tinha vibrado três vezes naquela manhã. Em nenhuma delas Carlos olhara. Juliana invejou aquilo. Não a capacidade de ignorar. A possibilidade de colocar uma coisa virada para baixo e imaginar que ela deixara de existir.
— Não demora — ele disse.
Ela quase respondeu que nunca demorava. Era isso que fazia havia anos.
Não demorava.
Não adoecia.
Não esquecia.
Não desistia.
Não tinha direito a uma tarde inteira ruim porque alguém precisava lembrar o horário dos remédios, a conta de luz, o processo, o telefone do advogado, a receita, o mercado, o filho, o marido, o pouco dinheiro que ainda precisava caber em muitos dias.
— Volto já.
Abriu a porta. O corredor continuava vazio. Ainda assim, saiu como quem entra num lugar cheio.
A vizinha do 302 apareceu antes do elevador. Juliana ouviu a fechadura e imediatamente desejou ter usado a escada.
— Ju!
O diminutivo veio carregado de uma intimidade que as duas nunca tiveram. Juliana sorriu por educação.
— Bom dia.
A mulher fechou a porta e aproximou-se.
— Menina, eu li.
Não perguntou o quê. Não precisava.
— Ah.
— Que coisa, hein?
Juliana apertou o botão do elevador.
— Pois é.
— Eu fiquei passada.
O elevador não vinha.
— A gente vê vocês aqui há tanto tempo e não imagina.
Juliana olhou para o número vermelho sobre a porta.
Quatro.
Três.
— Não imagina o quê?
A mulher pareceu não esperar a pergunta.
— Não... tudo isso.
— Tudo isso o quê?
Dois.
A vizinha ajeitou a bolsa no ombro.
— As dificuldades.
Juliana assentiu.
Um.
— É.
A porta abriu. As duas entraram. A mulher apertou o térreo, embora Juliana já tivesse apertado. Por alguns segundos, ficaram em silêncio.
Então:
— Qualquer coisa que você precisar, viu?
Juliana conhecia aquela frase. Todo mundo conhecia. Era uma frase socialmente perfeita porque não exigia nada de quem dizia e tornava ingrato quem não agradecesse.
— Obrigada.
— Estou falando sério.
— Eu sei.
— Se precisar de comida, alguma coisa...
Juliana virou o rosto. A vizinha percebeu tarde demais.
— Não estou dizendo que vocês estão passando fome.
Juliana sentiu o estômago endurecer.
— Eu sei.
— É porque na matéria fala das dificuldades, do dinheiro, essas coisas...
— Eu sei o que a matéria fala.
A porta abriu no térreo. Juliana saiu primeiro.
— Ju.
Ela parou.
— Desculpa. Eu só quis ajudar.
Juliana respirou. A mulher parecia sinceramente constrangida. Isso tornava tudo pior.
— Eu sei.
E sabia mesmo. Não havia maldade suficiente para odiar. Era apenas alguém tentando transformar uma dor que conhecera havia poucas horas em alguma coisa que soubesse fazer. Juliana seguiu. Na portaria, seu Renato levantou os olhos.
— Bom dia, dona Juliana.
— Bom dia.
Normal.
Quase. Ele tornou a olhar para o jornal aberto sobre a bancada. Não era a matéria. Era apenas um jornal. Juliana percebeu o próprio pensamento e sentiu vergonha.
Já estava fazendo o mesmo que Carlos. Procurando intenção. Na porta do prédio, uma senhora que passeava com um cachorro pequeno sorriu.
— Vai dar certo.
Juliana parou.
— Desculpa?
— Vai dar certo agora.
A senhora apontou vagamente para lugar nenhum.
— Eu li aquilo.
Aquilo.
— Espero que sim — Juliana respondeu.
— Quando aparece, eles resolvem.
Eles.
Juliana quase perguntou quem eram eles. Não perguntou. Atravessou a rua.
Na padaria havia sete pessoas. Juliana contou sem querer. Dois homens no balcão. Uma mulher com uma criança. Um entregador. Um rapaz perto do caixa. Duas senhoras numa mesa pequena. Ninguém olhou quando ela entrou. Ou olharam e ela não percebeu.
Ou perceberam e fingiram não olhar. A dúvida era nova. Ou talvez sempre tivesse existido e apenas ganhado nome. Pegou pão. Leite.
Olhou o preço do café. Devolveu. Pegou de novo. Devolveu outra vez.
— Juliana?
Ela reconheceu a voz antes do rosto. Márcia. Morava duas ruas acima. Tinham filhos com idades próximas. Durante anos, encontraram-se em reunião de escola, fila de vacinação, mercado, aniversário de criança. Não eram amigas. Eram uma dessas relações que a vida mantém por repetição.
— Oi, Márcia.
Márcia aproximou-se.
— Eu vi a matéria ontem.
Claro.
— Sim.
— É o Carlos, né?
Juliana sentiu o corpo inteiro responder à pergunta.
Não havia sobrenome.
Não havia endereço.
Não havia fotografia.
Não havia fábrica.
Não havia bairro.
Camila fizera tudo certo. E ali estava Márcia.
— É.
A palavra saiu antes que pudesse decidir se queria dizê-la. Márcia baixou a voz.
— Nossa, amiga...
Amiga.
— Eu não fazia ideia.
— Muita gente não fazia.
— Mas ele está... como é que eu digo?
Juliana esperou.
— Está bem?
A pergunta teria sido simples no dia anterior. Agora não era.
— Dentro do possível.
Márcia assentiu com uma gravidade recém-adquirida.
— Porque eu encontrei ele outro dia no mercado.
Juliana sentiu algo se mover dentro do peito.
— E?
— Não, nada. Ele estava normal.
Normal.
A palavra encontrou todas as outras. Compensado. Lúcido. Orientado.
Apto.
Normal.
— Ele compra comida — Juliana respondeu.
Márcia piscou.
— Eu sei.
— Vai ao mercado.
— Claro.
— Às vezes pega ônibus também.
A mulher ficou desconfortável.
— Ju, eu não quis dizer...
— Eu sei exatamente o que você quis dizer.
A voz de Juliana subiu um pouco. Não o bastante para chamar atenção. O bastante para mudar o ar. Márcia recuou meio passo.
— Eu estava dizendo que não parecia.
— Esse é o problema.
— Eu entendi a matéria.
— Entendeu?
A pergunta saiu afiada. Mais afiada do que Juliana planejava. Um dos homens no balcão olhou. Ela percebeu. Márcia também.
— Eu só estava conversando.
— Então conversa comigo. Não sobre como meu marido parece.
Silêncio.
A criança perto do balcão derrubou uma moeda. O som metálico bateu no chão. Juliana sentiu vontade de ir embora. Mas ainda não havia pagado os itens. Márcia apertou os lábios.
— Desculpa.
De novo. Todo mundo agora parecia pedir desculpas por olhar depois de ter sido convidado a olhar. Juliana virou-se para o caixa. Colocou o pão e o leite sobre o balcão.
— Só isso?
— Só.
Enquanto o rapaz passava as compras, uma voz veio da mesa atrás. Não era dirigida a ela. Talvez.
— Essas coisas são complicadas.
Outra voz:
— Muito.
— Tem caso verdadeiro, claro.
Pausa.
— Mas também tem muita gente se aproveitando.
Juliana ficou imóvel. O rapaz do caixa informou o valor. Ela não ouviu.
— Senhora?
— Oi?
Ele repetiu. Juliana abriu a bolsa. Atrás dela, a conversa continuara para outro assunto. Ou talvez não. Não importava mais.
Pagou. Pegou a sacola. Na porta, olhou para a mesa. As duas mulheres não olharam de volta. Uma mexia o café.
A outra passava manteiga numa torrada. Talvez não estivessem falando de Carlos. Talvez estivessem. Era esse o novo castigo. A matéria não precisava ser mencionada para estar em toda parte.
Juliana caminhou até a esquina e não virou para casa. Continuou. Não sabia por quê. A sacola pesava pouco. O corpo, muito.
Passou por uma farmácia. Uma banca. Um salão de beleza ainda fechado. Parou perto de uma praça pequena, onde havia dois bancos de concreto sob árvores antigas. Sentou.
Colocou a sacola ao lado. Pegou o celular. Havia onze mensagens. Duas eram de Irene. Uma da irmã.
Uma de uma antiga colega. Três de números que reconhecia vagamente.
Uma de Marcelo.
Duas de pessoas do prédio. Uma de Camila. Juliana abriu apenas a última.
“Bom dia. Não quero invadir. Só queria saber como vocês passaram a noite. Não precisa responder agora.”
Juliana ficou olhando para a tela. Sentiu raiva. Uma raiva limpa, imediata, confortável durante alguns segundos porque finalmente tinha endereço. Camila. Era mais fácil se a culpa fosse de Camila.
A jornalista entrara na casa. Ouvira. Anotara. Escrevera. Publicara.
A matéria estava na rua porque Camila a colocara na rua. Juliana começou a digitar.
“Você disse que ia ter cuidado.”
Parou. Apagou. Digitou de novo.
“O Carlos não consegue sair de casa agora.”
Não era verdade. Ou talvez fosse. Apagou.
“Isso foi um erro.”
Ficou olhando para as quatro palavras. Isso foi um erro. Não enviou. Porque uma memória apareceu antes. Ela própria, na sala.
Camila perguntando. Marcelo explicando. Carlos hesitando. E ela querendo. Querendo muito.
Não fama.
Não exposição.
Não pena.
Queria que alguém entendesse. Queria que alguém, finalmente, entrasse naquela casa e saísse sabendo que o que acontecia ali não era preguiça, incompetência, exagero, fraqueza, má administração, falta de fé, falta de vontade, casamento malfeito ou qualquer outra explicação que as pessoas ofereciam quando uma realidade difícil precisava caber num julgamento simples. Ela tinha concordado. Mais do que isso. Em algum momento, fora ela quem empurrara a porta.
Juliana apagou a mensagem. A raiva perdeu Camila e voltou inteira para ela. Isso doeu mais. Guardou o celular. Ficou sentada.
Um ônibus passou na avenida próxima. Uma motocicleta arrancou. Uma mulher empurrava um carrinho de bebê. Dois rapazes riam de alguma coisa no outro lado da praça. O mundo continuava sem consultar ninguém.
Juliana fechou os olhos. Por alguns minutos, decidiu não ser esposa de Carlos.
Não ser mãe de Gabriel.
Não ser filha de Irene.
Não ser a mulher da matéria.
Não ser cuidadora.
Não ser quem sabia a hora do remédio.
Não ser quem tinha de responder se estavam bem.
Ficou apenas sentada. Durou sete minutos. Ela conferiu depois.
Sete.
Então levantou. Porque o leite estava fora da geladeira.
Carlos estava na janela quando ela voltou. A cortina aberta apenas o suficiente. Juliana percebeu antes mesmo de colocar a chave na porta. Entrou.
— Você demorou.
Não havia acusação. Mas ela ouviu.
— Eu sentei um pouco na praça.
Carlos virou-se.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não.
Ele olhou para a sacola.
— Só pão e leite?
— Só.
— Você não comprou café.
Juliana colocou a sacola sobre a mesa.
— Estava caro.
Carlos continuou olhando. Ela sabia o que ele estava fazendo. Lendo o que não fora dito.
— Quem falou com você?
Juliana respirou fundo.
— Carlos...
— Falaram alguma coisa?
— Pessoas falam.
— Sobre mim?
Ela abriu a geladeira.
— Algumas.
— O quê?
— Nada que importe.
Carlos riu. Foi um som curto. Sem humor.
— Todo mundo fica decidindo o que importa.
Juliana colocou o leite na prateleira. Fechou a porta.
— Uma vizinha ofereceu ajuda.
— Ajuda de quê?
— Não sei.
— Dinheiro?
— Não.
— Comida?
Juliana não respondeu rápido o suficiente. Carlos percebeu.
— Comida.
— Ela só quis ser gentil.
— Porque acha que a gente está passando fome.
— A matéria fala de dificuldade financeira.
— A matéria fala da nossa vida.
— Carlos...
— Mais alguém?
Ela passou a mão pelo rosto.
— Márcia.
— Que Márcia?
— Mãe do Vinícius.
— O que ela disse?
— Nada.
— Juliana.
— Disse que já tinha te visto no mercado e que você parecia normal.
Carlos ficou quieto. O rosto não mudou imediatamente. A mudança veio pelos ombros. Subiram um pouco. Depois pelas mãos.
Os dedos procuraram um ao outro.
— Eu sabia.
— Carlos, não começa.
Ele levantou os olhos.
— Não começa o quê?
A pergunta atingiu Juliana antes que percebesse o que tinha dito.
— Eu quis dizer...
— Não começa a ficar doente?
— Não.
— Não começa a estragar?
— Carlos, não faz isso.
— Fazer o quê?
— Transformar tudo que eu digo em uma coisa contra você.
Ele olhou para ela. Juliana soube, no mesmo instante, que ultrapassara alguma coisa pequena. Não era ainda uma ruptura. Era uma fissura.
— Eu faço isso?
Ela fechou os olhos.
— Às vezes.
Silêncio.
Carlos pegou o celular da mesa.
— Eu não devia ter concordado.
Juliana sentiu a culpa mudar de lugar outra vez.
— Você não concordou sozinho.
— Eu sei.
— Então não fala como se...
— Você queria.
Ela parou.
— O quê?
— A matéria.
— Nós dois concordamos.
— Você queria mais.
A frase ficou entre os dois. Era verdadeira. Talvez por isso fosse tão violenta. Juliana sentiu o rosto esquentar.
— Sim.
Carlos não esperava.
— Eu queria.
Ela se aproximou.
— Eu queria que alguém visse. Eu queria que alguém entrasse aqui e dissesse que eu não estava inventando também. Que eu não era uma mulher ruim porque estava cansada. Que você não era um vagabundo porque não conseguia trabalhar. Que o Gabriel não estava faltando às coisas porque era irresponsável. Eu queria.
A voz começou a crescer.
— Eu queria que alguém visse esta casa.
Carlos recuou um pouco. Juliana percebeu e não conseguiu parar.
— Porque eu estou aqui dentro há seis anos, Carlos.
— Eu sei.
— Não. Você sabe que você está aqui há seis anos. É diferente.
Ele ficou imóvel. A frase acertou. Juliana viu. E continuou mesmo assim. Era isso que mais a assustou depois.
— Tudo acontece com você e sobra em mim. O médico fala com você, eu mas sou eu quem tem que lembrar. O remédio é seu, mas eu controlo. A perícia é sua, eu guardo o papel. A crise é sua, eu acordo à noite, pensativa. A conta é nossa, eu faço caberem as despesas no mês. A vergonha é sua, mas eu explico. O medo é seu...
Parou. Carlos estava olhando para ela.
— “é seu”, e? — perguntou.
A voz era baixa. Juliana perdeu a resposta.
Carlos repetiu:
— O seu medo é de quem?
Ela abriu a boca.
Nada.
O celular dele vibrou. Os dois olharam. A interrupção pareceu quase misericórdia. Carlos desbloqueou a tela. Era uma mensagem encaminhada.
Um áudio. Do grupo do condomínio. Juliana viu apenas o cabeçalho antes que ele apertasse play. Uma voz masculina saiu do aparelho.
“Eu não estou dizendo que é mentira, não. Deus me livre. Mas eu vejo ele entrando e saindo direto. Fala normal, anda normal. Agora, se o médico diz, né...”
Outra voz, ao fundo:
“É aquele do terceiro?”
Risadas pequenas.
Depois:
“É. Saiu numa matéria aí.”
Carlos interrompeu. Juliana estendeu a mão.
— Me dá isso.
Ele afastou o celular.
— Quem mandou?
Abaixo do áudio havia uma mensagem de Roberto, o antigo colega.
“Cara, achei que você precisava saber que isso está circulando. Não entra nessa. Deixa quieto.”
Carlos releu.
— Não entra nessa — disse.
— Ele tem razão.
— Quem está no grupo?
— Carlos.
— O Renato está?
— Eu não sei.
— A mulher do 302?
— Eu não sei.
— Quem gravou?
— Eu não sei!
A resposta explodiu. Dessa vez, o volume foi alto. Carlos ficou em silêncio. Juliana levou a mão à testa.
— Desculpa.
Ele continuou olhando para o áudio.
— Eles estão falando de mim dentro do prédio.
— Algumas pessoas.
— Você ouviu.
— Ouvi.
— Então não fala “algumas pessoas” como se isso deixasse pequeno.
— Eu não estou deixando pequeno.
— Está.
— Eu estou tentando impedir que fique maior!
Carlos levantou-se.
— Onde você vai?
Ele colocou o celular no bolso.
— Lá embaixo.
Juliana se moveu imediatamente.
— Não.
— Eu quero saber quem falou.
— E vai fazer o quê?
— Perguntar.
— Não.
— Eu vou perguntar.
— Carlos, você não vai descer agora.
Ele olhou para ela. Algo mudou naquele olhar. Não era delírio. Não era ausência. Era raiva.
Raiva verdadeira. Humana. E exatamente por isso Juliana teve mais medo.
— Você não manda em mim.
Nunca tinha dito aquilo daquela maneira. Juliana levou alguns segundos para responder.
— Não.
Engoliu.
— Mas eu te conheço.
— Parece que agora todo mundo conhece.
Ele abriu a porta.
— Carlos.
Ele saiu. Juliana ficou parada por um segundo. Depois foi atrás.
O elevador demorou demais. Carlos escolheu a escada. Desceu rápido. Rápido demais para o corpo medicado, para o tremor discreto, para o coração que parecia encontrar degraus onde não havia. Terceiro.
Segundo. Primeiro. Juliana vinha atrás.
— Carlos, para.
Ele não parou. No térreo, a porta de vidro estava aberta. Seu Renato conversava com dois moradores perto da entrada. Um deles segurava o celular. Carlos reconheceu a voz antes de reconhecer o homem.
Seu Álvaro. Morava no primeiro andar. Aposentado. Camisa aberta no peito. Chinelo.
Celular na mão. Era ele. Ou parecia ser. Carlos aproximou-se.
— Foi você?
Os três homens olharam. Seu Renato franziu a testa.
— Bom dia, seu Carlos.
Carlos ignorou. Olhou para Álvaro.
— Foi você que falou?
— Falei o quê?
— No áudio.
Juliana chegou.
— Carlos.
Álvaro olhou para ela. Depois para Carlos. O movimento irritou Carlos mais do que deveria.
— Estou falando com você.
Álvaro endureceu.
— E eu estou respondendo.
— Você falou que eu entro e saio normal.
O homem hesitou. Foi suficiente.
— Ah.
Carlos deu mais um passo.
— Foi.
Álvaro guardou o celular parcialmente no bolso.
— Rapaz, isso foi conversa de grupo.
— Sobre mim.
— Ninguém falou mal de você.
— Você falou que eu pareço normal.
— E parece.
Silêncio.
Seu Renato baixou os olhos. O outro morador ficou imóvel. Juliana sentiu o mundo inteiro se estreitar naquele espaço entre a portaria e a calçada. Carlos respirou.
— O que é normal?
Álvaro soltou o ar.
— Carlos, não começa confusão.
— Eu só fiz uma pergunta.
— Então pronto. Você parece bem. É elogio.
Carlos riu. Dessa vez, o som teve alguma coisa quase quebrada.
— Elogio.
— É.
— Você leu a matéria?
— Li por cima.
— Então leu nada.
— Eu tenho mais o que fazer.
Aquilo deveria ter encerrado. Não encerrou. Carlos apontou para o bolso onde o celular desaparecera.
— Me mostra o grupo.
Álvaro franziu a testa.
— Que grupo?
— Onde você mandou.
— Eu não vou te mostrar meu telefone.
— Quero saber quem está falando.
— Problema seu.
Juliana tocou o braço de Carlos.
— Vamos subir.
Ele afastou o braço. Não com força. Mas afastou. Juliana sentiu como se tivesse sido empurrada. Carlos voltou-se para Álvaro.
— Me mostra.
— Não.
— Me mostra.
— Carlos — Juliana insistiu.
Álvaro tirou novamente o celular do bolso.
— Eu vou entrar.
Carlos viu a tela acesa. Viu o próprio nome. Ou achou que viu. A mão se moveu antes de terminar o pensamento. Pegou o aparelho.
Não arrancou violentamente. Mas pegou. Sem permissão. Álvaro reagiu.
— Tá maluco?
Segurou o braço de Carlos. Carlos puxou. O telefone escapou.
Caiu.
O som foi pequeno. Vidro contra piso. Mas para Carlos pareceu enorme. Todos olharam. O aparelho estava no chão.
Uma rachadura atravessava a tela. Ninguém falou durante um segundo. Depois tudo aconteceu junto.
— Você quebrou meu celular!
— Eu não...
— Você está ficando maluco?
— Não fala assim com ele — Juliana disse.
— Ele arrancou meu telefone!
— Eu só queria ver...
— Isso é agressão!
Seu Renato se aproximou.
— Calma, gente.
— Calma nada! Olha isso!
Álvaro levantou o celular. A tela quebrada parecia uma prova material imediatamente compreensível. Ao contrário de Carlos. Duas pessoas pararam na calçada. A vizinha do 302 apareceu perto do elevador.
Outro morador abriu a porta interna. Olhares. Carlos percebeu todos. E, porque percebeu, perdeu ainda mais a capacidade de escolher para onde olhar.
— Eu não joguei — disse.
Álvaro riu sem humor.
— Caiu sozinho?
— Você puxou.
— Porque você pegou da minha mão!
— Eu queria ver o que estavam falando de mim!
— E isso te dá direito de pegar meu telefone?
Carlos abriu a boca.
Nada.
Não dava. Ele sabia. Essa era a pior parte.
Álvaro continuou:
— Depois vem matéria dizendo que é tudo injustiça.
Juliana virou-se.
— Não mistura as coisas.
— Eu estou misturando?
— Está.
— Seu marido acabou de arrancar meu celular da mão.
— Ele não está bem.
A frase saiu. Juliana ouviu. Carlos também. Ele não está bem. O corredor inteiro ouviu.
Álvaro abriu os braços.
— Então é isso. Quando convém, está bem. Quando faz uma coisa dessas, não está bem.
Carlos ficou imóvel. A frase encontrou exatamente o lugar onde mais doía. Seu Renato tentou intervir.
— Álvaro, chega.
Mas já havia sido dito. Carlos olhou ao redor. A vizinha do 302. O outro morador. As duas pessoas na calçada.
Juliana. Todos olhando. Era aquilo. A versão perfeita. Durante anos, ele tentara explicar que parecer bem não significava estar apto.
Agora, diante de todos, estava mal. E isso também não servia. Talvez nunca servisse.
— Eu pago o telefone — Juliana disse.
Carlos virou-se para ela.
— Não.
— Carlos...
— Eu pago.
— Com quê? — ela respondeu.
A pergunta saiu antes que pudesse segurar.
Silêncio.
Foi pior do que gritar. Carlos olhou para ela. Juliana quis recolher a frase. Não havia como. Álvaro desviou o rosto.
Até ele pareceu constrangido. Carlos respirou uma vez. Duas.
— É — disse.
Ninguém entendeu.
— Com quê?
Juliana aproximou-se.
— Eu não quis dizer...
— Quis.
— Eu estou nervosa.
— Você quis.
Ela sentiu alguma coisa se romper dentro dela também.
— E você queria o quê, Carlos?
Ele levantou o rosto.
— Que eu fizesse o quê? Que eu continuasse segurando tudo e sorrindo para todo mundo? Que eu pedisse desculpa porque você pegou o telefone da mão dele? Que eu explicasse? Eu estou cansada de explicar você!
Dessa vez, ninguém desviou. Juliana percebeu. A frase ficou pública no instante em que saiu. Carlos não respondeu. Ela continuou. Chorando e odiando o próprio choro:
— Eu estou cansada de explicar para médico, para juiz, para vizinho, para a minha mãe, para o Gabriel, para você, para mim. Eu estou cansada!
Carlos deu um passo para trás. Foi pouco. Mas Juliana viu. Então veio a frase que ela não sabia que existia dentro dela:
— Eu só queria um pouco de refresco.
Silêncio.
Nem ela sabia exatamente o que significava. Refresco. Uma palavra pequena. Quase ridícula diante de tudo. Mas era a única que encontrou. Um intervalo. Um lugar onde não precisasse sustentar ninguém. Um minuto em que a vida não exigisse explicação. Carlos baixou os olhos.
Álvaro segurava o celular quebrado. Seu Renato olhava para o chão. A vizinha do 302 não ofereceu ajuda. Ninguém sabia o que oferecer agora. A rua tinha lido a matéria. Agora lia os dois. Ao vivo.
Carlos subiu sozinho. Juliana ficou. Não porque tivesse escolhido ficar com os outros. Porque não conseguiu acompanhá-lo imediatamente.
Seu Renato murmurou:
— Dona Juliana...
Ela levantou a mão.
Não queria gentileza.
Não queria testemunha.
Não queria interpretação.
Álvaro parecia menos irritado. Isso a enfureceu mais.
— Quanto fica o conserto? — perguntou.
— Eu vejo.
— Me fala.
— Depois.
— Me fala.
— Juliana, deixa isso agora.
Ela olhou para ele.
— Não fala meu nome como se você me conhecesse.
Álvaro fechou a boca. Juliana pegou a bolsa e saiu.
Sem subir.
Sem pão.
Sem leite.
Sem avisar Carlos.
Atravessou a rua. Andou. Dessa vez não foi à praça. Continuou por duas quadras. Depois três.
O celular começou a tocar. Carlos. Ela olhou. Não atendeu. Tocou novamente.
Ela apertou o botão lateral.
Silêncio.
Continuou andando. A culpa veio imediatamente. E se ele piorasse? E se caísse? E se tomasse remédio errado? E se saísse? E se fizesse alguma coisa? E se... Juliana parou no meio da calçada.
— Não.
Falou em voz alta. Uma mulher que passava olhou. Juliana não se importou.
— Não.
Dessa vez, para si. Carlos tinha quarenta e quatro anos. Era doente. Não era criança. Ela podia andar três quarteirões. Podia não atender um telefonema. Podia não resolver alguma coisa durante dez minutos. Talvez quinze. Talvez meia hora. Entrou numa lanchonete que nunca frequentava. Sentou-se perto da parede.
— O que vai querer? — perguntou a atendente.
Juliana pensou. Não tinha fome.
— Um refrigerante.
— Lata?
— Pode ser.
Quando a lata chegou, estava gelada. Juliana segurou com as duas mãos. O frio do metal pareceu a coisa mais concreta daquele dia. Tomou um gole. Depois outro. Refresco... Quase riu. Em vez disso, chorou. Pouco. Mas sem esconder. Sem limpar imediatamente. Sem pedir desculpas.
E, durante alguns minutos, não voltou.
No apartamento, Carlos estava sentado diante da mesa. A sacola da padaria continuava fechada. O pão estava ali. O leite também. Ele não guardou.
O celular de Juliana chamou até cair na caixa postal. Tentou outra vez.
Nada.
Carlos colocou o próprio aparelho sobre a mesa. As mãos tremiam. Mais do que de costume. Olhou para elas. Pensou no telefone de Álvaro escapando.
Tentou reconstruir o movimento. Eu peguei. Ele puxou. Eu puxei.
Caiu.
Tentou novamente. Eu peguei. Não devia. Ele puxou. Eu segurei.
Não devia.
Caiu.
Quebrou.
As versões começaram a se multiplicar.
Em alguma delas, Álvaro o provocara.
Em outra, ele apenas tentara ver.
Em outra, Juliana deveria tê-lo impedido.
Em outra, a matéria nunca deveria ter existido.
Em outra, Camila era culpada.
Em outra, Marcelo.
Em outra, o juiz.
Em outra, o sistema.
Em outra, ninguém.
Na última, apenas ele. Carlos levantou-se. Foi ao banheiro. Olhou o próprio rosto no espelho. Parecia normal.
A ironia foi tão perfeita que teve vontade de socar o vidro. Não socou. Segurou a pia. Respirou. A frase de Álvaro voltou.
Quando convém, está bem. Quando faz uma coisa dessas, não está bem. Carlos fechou os olhos. Havia passado anos tentando dizer que uma pessoa podia falar, andar, comprar pão, pegar ônibus e ainda assim não conseguir sustentar um trabalho. Agora tinha feito algo errado. Algo simples de entender.
Pegar o telefone de outra pessoa era errado.
Não precisava de laudo.
Não precisava de perícia.
Não precisava de interpretação clínica.
Era errado. Essa certeza o destruiu mais do que qualquer dúvida. Porque, durante alguns segundos, ele não conseguiu se esconder atrás da doença, do processo, da medicação, do medo ou da injustiça. Tinha feito.
Ele.
Carlos Henrique. Não o diagnóstico. Não o homem da matéria.
Ele.
Voltou para a sala. Sentou. A tela do celular acendeu. Mensagem de Marcelo.
“Bom dia. Como vocês estão hoje?”
Carlos quase riu. Não respondeu. Abriu a matéria. O título apareceu.
ENTRE UM LAUDO E OUTRO, O QUE ACONTECE COM ELE?
Carlos desceu a página. Leu a própria frase.
“Eu não sei mais como parecer doente sem parecer mentiroso.”
Ontem aquilo parecia a frase mais perigosa que tinha dito. Hoje já havia outra. Não escrita. Não gravada. Talvez contada no grupo do condomínio antes mesmo de Juliana voltar.
Carlos tomou o celular da mão de um vizinho. Homem de matéria sobre benefício quebra celular de morador. Paciente psiquiátrico perde controle após reportagem. As manchetes apareceram prontas na cabeça. Nenhuma existia.
Ainda. Esse “ainda” foi suficiente. Carlos bloqueou o telefone. Olhou para a porta. Juliana não voltara.
E pela primeira vez desde que a matéria fora publicada, ele desejou exatamente o contrário do que desejara durante anos.
Não queria ser acreditado.
Não queria ser visto.
Não queria ser entendido.
Queria que ninguém tivesse presenciado.
Queria que ninguém soubesse.
Queria voltar para antes.
Antes da reportagem.
Antes da audiência.
Antes do primeiro laudo.
Antes do dia em que o mundo ficara alto.
Antes de tudo.
Mas havia coisas que, depois de vistas, não podiam ser devolvidas à invisibilidade.
Juliana terminou o refrigerante. A lata vazia ficou sobre a mesa. O celular continuava no silencioso. Quando finalmente olhou, havia quatro chamadas de Carlos. Uma mensagem.
“Desculpa.”
Só isso. Juliana sentiu a raiva desaparecer rápido demais. No lugar veio culpa. Depois raiva da culpa. Era sempre assim.
Até quando queria descanso, precisava primeiro atravessar a acusação interna de estar descansando.
Digitou:
“Estou bem.”
Apagou.
Digitou:
“Preciso ficar sozinha um pouco.”
Olhou. Enviou. A resposta veio quase imediatamente.
“Tá.”
Nenhuma pergunta. Nenhum pedido. Nenhum “volta”. Juliana deveria ter sentido alívio. Não sentiu.
Aquele “tá” parecia uma porta fechada. Pegou a bolsa. Levantou-se. Parou. Sentou novamente.
Não. Tinha pedido refresco. Ninguém lhe daria. Então, pela primeira vez, ela daria a si mesma. Ficou.
Mais dez minutos. Talvez quinze. Não contou.
Carlos recebeu a mensagem.
“Preciso ficar sozinha um pouco.”
Leu três vezes.
Na primeira, entendeu a frase.
Na segunda, procurou alguma coisa escondida.
Na terceira, encontrou.
Sozinha. Sem ele. Guardou o celular. Não ligou novamente. A casa parecia diferente sem Juliana, embora ela estivesse fora havia menos de uma hora.
O pão sobre a mesa. O leite esquentando dentro da sacola. A cortina meio fechada. A pasta marrom. Os remédios.
Tudo no mesmo lugar. Mas agora Carlos conseguia imaginar a ausência dela. Isso era novo. E, depois que conseguiu imaginar, não soube mais parar. Talvez não volte.
Volta.
Talvez esteja ligando para a mãe. Não está. Talvez esteja cansada de explicar você. Ela disse. Carlos encostou as mãos nos ouvidos.
Não adiantava. A cabeça não falava de fora. Ele se levantou. Guardou o leite. Fechou a sacola do pão.
Pequenas tarefas. Concretas. Coisas que ainda obedeciam. Depois voltou à sala e sentou.
Não abriu a cortina.
Não verificou a rua.
Não procurou os vizinhos.
Não ouviu o áudio novamente.
Ficou quieto. Talvez aquilo fosse controle. Talvez fosse medo. Não sabia. Na cabeça, a cena da portaria se repetia.
O telefone. A queda. O rosto de Álvaro. Os vizinhos.
Juliana dizendo:
Eu estou cansada de explicar você.
Carlos compreendia. E essa foi a condenação. Se ela tivesse sido injusta, ele poderia sentir raiva. Se tivesse mentido, poderia se defender. Mas entendia.
Juliana estava cansada. Gabriel estava com raiva. Álvaro tinha o direito de não entregar o telefone. Camila tinha cumprido o que prometera. Marcelo fizera o possível.
Regina escrevera os laudos. O processo seguia o processo. Todo mundo tinha uma explicação. Todo mundo podia estar parcialmente certo. E, mesmo assim, ele continuava sentado ali, no centro de uma vida que parecia machucar todos que chegavam perto.
Carlos olhou para as próprias mãos. Pela primeira vez em muito tempo, não perguntou se o juiz acreditaria nele.
Não perguntou se a perícia o consideraria apto.
Não perguntou se os vizinhos pensavam que fingia.
Não perguntou se a matéria ajudaria.
Perguntou outra coisa. Talvez a pior.
E se o problema não for só o que fazem comigo?
A pergunta entrou e ficou. Carlos abaixou a cabeça. Não havia ninguém ali para responder.
Quando Juliana finalmente saiu da lanchonete, não voltou imediatamente para casa. Ficou parada na calçada. Podia virar à esquerda.
Casa.
À direita, a avenida. Atrás, a praça. Por alguns segundos, sentiu uma liberdade tão pequena que quase doeu. Ninguém sabia exatamente onde ela estava. Carlos sabia apenas que precisava ficar sozinha.
A mãe não sabia. A irmã não sabia. Gabriel não sabia. Camila não sabia. Marcelo não sabia.
Era um espaço minúsculo no mundo onde, durante alguns minutos, Juliana não precisava ser explicada. Ela respirou. Depois virou à esquerda. Caminhou devagar.
Não porque tivesse decidido que tudo estava bem.
Não estava.
Não porque tivesse perdoado Carlos.
Nem sabia ainda o que havia para perdoar. Não porque tivesse perdoado a si mesma pela matéria, pela explosão ou pela frase diante dos vizinhos. Também não. Voltava porque, naquele momento, voltar ainda era o que queria fazer. Essa diferença importava.
Mesmo que ninguém pudesse vê-la.
Carlos ouviu a chave. Levantou a cabeça. Juliana entrou. Os dois se olharam. Nenhum sorriu.
Ela fechou a porta. Viu a sacola vazia sobre a mesa.
— Guardou o leite?
— Guardei.
— O pão?
— Está ali.
Silêncio.
Era absurdo. Depois do que acontecera, falavam de leite e pão. Talvez casas sobrevivessem assim. Não por grandes reconciliações. Por coisas que estragavam se não fossem guardadas.
Juliana colocou a bolsa sobre a cadeira. Carlos levantou-se.
— Ju...
Ela ergueu a mão.
— Não agora.
Ele parou.
— Tá.
Ela caminhou até o quarto. Na porta, parou. Carlos esperou.
— Eu não vou embora.
A frase deveria confortá-lo. Mas veio acompanhada de outra.
— Só não consigo conversar agora.
Carlos assentiu. Juliana entrou. Fechou a porta. Não bateu. Apenas fechou.
Carlos permaneceu na sala. Entre os dois havia uma porta comum, de madeira fina, a mesma de todos os dias. Ele poderia atravessá-la. Não atravessou. Sentou novamente.
Lá fora, alguém passou pelo corredor. Uma porta abriu. Outra fechou. Uma voz falou alguma coisa. Carlos não tentou entender.
Naquele dia, já tinha entendido coisas demais. Pegou o celular. Havia uma nova mensagem. Número desconhecido. Abriu.
“Boa tarde. Sou morador do bloco ao lado. Não quero me meter, mas vi o que aconteceu hoje cedo. Espero que vocês consigam resolver.”
Carlos leu. Bloqueou a tela. Outro morador. Outro olhar. Outra versão.
A rua não tinha terminado de ler. Talvez nunca terminasse. Do quarto, nenhum som. Carlos colocou o telefone sobre a mesa. Durante anos, teve medo de que as pessoas descobrissem que estava doente e usassem isso para definir tudo o que fazia.
Depois passou a ter medo de que ninguém acreditasse. Agora existia uma terceira possibilidade.
Podiam acreditar que estava doente.
Podiam acreditar que sofria.
Podiam até acreditar que o sistema fora injusto.
E, ainda assim, podiam condená-lo por aquilo que ele fizera. Não havia contradição. Essa descoberta foi insuportavelmente adulta. A doença explicava muita coisa. Não absolvia tudo.
Carlos olhou para a porta do quarto.
Quis pedir desculpas.
Quis explicar.
Quis dizer que não era aquilo.
Mas uma frase apareceu antes:
Eu fiz aquilo.
Ficou sentado.
Sem defesa.
Sem laudo.
Sem argumento.
Do outro lado da porta, Juliana deitou-se sem tirar os sapatos. Não dormiu. Carlos não chamou. Gabriel ainda não tinha voltado. A casa inteira parecia suspensa entre uma coisa que acabara e outra que ninguém sabia se ainda começaria.
Por alguns minutos, talvez horas, nenhum dos dois tentou consertar. E foi isso que tornou aquele silêncio diferente de todos os anteriores. Até então, sempre havia alguma coisa depois. Uma consulta. Um prazo.
Uma perícia. Um remédio.
Uma conta.
Uma nova tentativa.
Naquela tarde, pela primeira vez, não havia próxima providência. Havia apenas Carlos na sala. Juliana atrás de uma porta fechada. Gabriel em algum lugar da cidade. Uma matéria circulando.
Um celular quebrado. E gente demais sabendo um pouco sobre eles. Carlos levantou os olhos para a casa. Teve a sensação absurda de que estava vendo o lugar depois do fim. Tudo permanecia ali. O sofá.
A mesa.
A cortina.
A pasta.
O pão. A porta. Era exatamente assim que ele imaginava que as coisas ficariam se, um dia, não houvesse mais família para organizá-las. Nada desapareceria imediatamente. Os objetos continuariam fazendo o papel de uma vida durante algum tempo.
Carlos fechou os olhos. Não sabia que aquilo não era o fim. Juliana também não. E talvez fosse melhor assim. Porque, naquela noite, nenhum dos dois teria força para acreditar numa continuação.