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Vazios que Gritam
Capítulo 06 - O que se move no escuro

Rio de Janeiro — Em uma manhã sombria

Alguns dias haviam passado desde a invasão ao Instituto Presença.

Na cidade, o tempo fizera o que sempre fazia com os acontecimentos que não interrompiam trânsito, fechavam escolas ou não derrubavam governos: empurrou-os lentamente para baixo de outras urgências. Os jornais já falavam de mortes, disputas diversas e promessas políticas. Ou seja, incidente superado. Pelo menos para os que nem mesmo dele souberam.

Mas para a turma do Instituto Presença, nada estava superado. E ele podia perceber isso.

Em uma casa sem número aparente, numa rua estreita onde os postes derramavam uma luz pálida sobre muros altos e portões enferrujados, três monitores permaneciam acesos desde a noite anterior. O cômodo era pequeno, mas a quantidade de equipamentos ali o fazia parecer ainda menor. Havia fios descendo pelas paredes, filtros de linha presos sob uma mesa larga, dois teclados, um rádio de comunicação, um aparelho antigo de frequência modulável, quatro discos rígidos externos identificados apenas por números e uma estante abarrotada de pastas cuja organização não seria compreendida por ninguém além do homem sentado diante das telas.

À sua esquerda, uma janela permanecia fechada.

A cortina grossa impedia que qualquer luminosidade escapasse para a rua. O ar era seco, ligeiramente aquecido pelo funcionamento contínuo dos aparelhos, e carregava um odor de poeira, café envelhecido e componentes eletrônicos. Sobre uma pequena mesa lateral, uma caneca vazia guardava no fundo uma película escura. Ao lado dela, um prato com duas fatias de pão endurecido denunciava uma refeição esquecida antes de ser concluída.

O homem não demonstrava fome.

Também não parecia cansado.

Mantinha o corpo inclinado para a frente, os cotovelos próximos às costelas, uma das mãos sobre o mouse e a outra imóvel sobre a mesa. Não digitava. Observava.

Em um dos monitores, seis janelas dividiam a tela. Eram transmissões de câmeras públicas, imagens de ruas, entradas de edifícios, estacionamentos e cruzamentos. Em outro, havia páginas de notícias locais abertas lado a lado com boletins policiais, postagens retiradas de redes sociais, cópias de ocorrências e uma planilha na qual nomes, datas, horários e locais se alinhavam em colunas estreitas. No terceiro monitor, uma imagem congelada mostrava a fachada do Instituto Presença.

O relógio digital marcava 03h17.

Do rádio, surgiram vozes entrecortadas por estática.

— Central, viatura em deslocamento para averiguação...

O restante se perdeu sob um ruído áspero.

O homem aumentou o volume, ouviu alguns segundos e tornou a reduzi-lo. O chamado não tinha relação com o que buscava. Uma briga doméstica. Um vizinho. Uma porta arrombada. Nada demais.

Abriu outra pasta.

Dentro dela, havia fotografias de crianças, mulheres, homens idosos, adolescentes e adultos jovens. Não eram retratos escolhidos com cuidado, mas imagens retiradas às pressas de celulares, documentos, redes sociais e álbuns familiares. Rostos sorrindo diante de bolos, praias, festas escolares, espelhos de elevador, mesas de cozinha. Rostos que, ao serem reunidos daquela maneira, perdiam a circunstância que lhes dera origem e passavam a compartilhar apenas uma coisa: ausência.

Ele percorreu as miniaturas lentamente.

Parou diante da fotografia de um menino.

A imagem mostrava uma criança de uniforme azul, mochila nas costas, cabeça um pouco inclinada, como se alguém tivesse chamado seu nome um instante antes do disparo da câmera.

O homem não abriu o arquivo.

Permaneceu olhando para ele.

Depois minimizou a pasta.

A tela voltou a exibir a fachada do Instituto.

A primeira vez que encontrara o nome de Orlando Nascimento, não lhe dera importância. Havia visto muitos homens transformarem a dor alheia em discurso, muitos institutos surgirem com logotipos respeitáveis, páginas bem construídas, palavras cuidadosas e nenhuma capacidade real de resistir quando o silêncio começava a cobrar um preço.

A princípio, o Instituto Presença parecera apenas mais um.

Um homem visível demais. Uma mulher inteligente demais para aquele tipo de exposição. Uma embaixadora. Alguns voluntários. Boas intenções... nenhuma defesa.

Ele conhecia aquela combinação. Já a vira terminar em entrevistas, seminários, fotografias institucionais e relatórios que ninguém lia.

Por isso entrara.

Não para destruir.

Ainda não.

Entrara porque precisava saber.

Toda organização dizia proteger os vulneráveis até que os vulneráveis se tornassem inconvenientes. Toda instituição prometia enfrentar estruturas maiores do que ela até perceber que estruturas maiores também sabiam ameaçar, comprar, desgastar, processar e até matar. E todo homem dizia não ter medo até descobrir que o medo não chegava gritando. Às vezes, vinha em forma de ligação silenciosa. Às vezes, num carro parado diante de casa. Às vezes, numa fotografia enviada sem mensagem alguma.

Ele conhecia o método.

Conhecia também as desistências.

Esperava encontrar no Instituto o que encontrara em quase todos os outros lugares: vaidade, fragilidade, improviso, disputas internas e negligência. Esperava encontrar documentos mal protegidos, dados dispersos e promessas maiores do que a estrutura podia oferecer. Mas encontrara tudo isso, em graus diferentes.

E uma outra coisa também havia se revelado ali.

O homem ampliou a imagem da fachada.

O rosto de Orlando não estava ali, mas ele o via mesmo assim.

Vira a entrevista concedida meses antes. Vira a forma como Orlando evitara determinadas palavras. Vira o instante em que a repórter fizera uma pergunta para a qual não havia resposta segura. Vira o silêncio antes da resposta.

Silêncios diziam mais do que discursos.

Quem mentia costumava preencher todos eles.

Orlando não preenchera.

O homem abriu um arquivo de áudio.

A voz de Orlando saiu baixa pelos alto-falantes:

— Cada desaparecimento começa muito antes de alguém perceber que a pessoa sumiu.

Ele interrompeu a reprodução.

Voltou ao início.

— Cada desaparecimento começa muito antes de alguém perceber que a pessoa sumiu.

Pausou novamente.

O homem apoiou as costas na cadeira.

Não era a frase. Frases podiam ser ensaiadas. Era o modo como Orlando a pronunciara, como se soubesse que estava dizendo menos do que queria. Como se alguma experiência ainda não revelada sustentasse cada palavra.

Na madrugada da invasão, ao atravessar os arquivos do Instituto, encontrara o nome de São Cristóvão.

Não o bairro. O caso.

Uma referência incompleta, mencionada numa anotação de Orlando e ausente dos relatórios oficiais. Nenhum dossiê correspondente. Nenhuma pasta organizada. Nenhuma linha na estrutura de acompanhamento. Apenas o nome, a data e uma observação curta demais para ter sido escrita sem intenção.

“Não falar com Nora.”

O homem lera aquilo três vezes.

Não porque estivesse surpreso com um segredo. Instituições eram feitas de segredos. Mas porque o texto não indicava encobrimento, cálculo ou traição.

Indicava medo.

Durante dois dias, tentara descobrir o que havia ocorrido em São Cristóvão.

Encontrara uma casa alugada havia muitos anos por um homem que não parecia ter condições de mantê-la. Encontrara pagamentos regulares. Encontrara uma esposa desaparecida, um filho desaparecido e um endereço que nunca fora abandonado. Encontrara um pai que continuava naquela casa porque acreditava, ou fingia acreditar, que um dia o menino poderia voltar e precisaria encontrar a porta aberta.

Não encontrara o menino.

Não encontrara a mulher.

Não encontrara explicação para Orlando manter o caso fora do Instituto.

Mas encontrara dor.

E dor, quando verdadeira, tinha um padrão que nenhuma tecnologia conseguia falsificar completamente.

O rádio estalou outra vez.

— Possível localização de menor... repetir... possível localização...

O homem avançou sobre a mesa.

A voz desapareceu sob interferência.

Girou um botão no aparelho, procurou a frequência, ajustou o ganho. Um ruído fino atravessou o cômodo.

— ...sexo feminino, aproximadamente onze anos...

Ele abriu a planilha.

Filtrou os registros.

Onze anos. Sexo feminino. Área metropolitana.

Havia quatro.

Anotou o horário da transmissão.

Acompanhou o deslocamento das viaturas por uma tela auxiliar.

Durante quinze minutos, não se moveu além do necessário. Os olhos transitavam entre o mapa, a frequência policial e os registros de desaparecidos. Quando a nova comunicação chegou, não trouxe alívio.

A menina não constava nos cadastros.

Fuga recente.

Encontrada numa praça.

Sem relação.

Ele apagou a anotação.

O cômodo voltou a ficar sob o domínio das ventoinhas, dos pequenos estalos elétricos e da respiração quase imperceptível do homem.

Na tela, uma mensagem permanecia aberta havia horas.

Não havia destinatário identificado.

Não havia assinatura.

Apenas uma linha:

VOCÊS NÃO SABEM QUEM ESTÃO PROCURANDO.

Abaixo dela, o cursor piscava.

O homem releu a frase.

Depois acrescentou:

MAS ESTÃO COMEÇANDO A FAZER AS PERGUNTAS CERTAS.

Permaneceu com os dedos sobre o teclado.

Apagou a segunda linha.

Apagou também a primeira.

Fechou a janela sem salvar.

Ainda não.

Enviar uma mensagem seria declarar presença. Declarar presença era aceitar uma posição no tabuleiro. E ele não sabia se Orlando compreenderia a advertência ou se Nora, mais desconfiada, tentaria rastreá-la. A mulher tinha bons instintos. Fora uma das poucas pessoas no Instituto a reagir à invasão como se ela não fosse apenas uma falha técnica.

Ela entendera que alguém estivera dentro.

Não um programa.

Não um código.

Alguém.

O homem abriu as imagens das câmeras próximas ao Instituto.

Nenhum movimento incomum.

Um carro passou devagar, mas não reduziu diante do portão. Uma motocicleta parou na esquina, o condutor consultou o celular e seguiu. Um homem com uniforme de limpeza atravessou a calçada carregando uma sacola plástica.

Nada.

Ainda assim, alguma coisa incomodava.

Ele ampliou uma das imagens.

Voltou dez segundos.

Avançou.

Repetiu.

Não era o carro.

Não era a motocicleta.

Era o homem com a sacola.

A forma de caminhar.

O intervalo entre cada passo.

A cabeça baixa demais, o corpo ligeiramente voltado para o lado oposto ao Instituto, como se evitar olhar fosse mais importante do que passar despercebido.

O homem congelou a imagem.

Ampliou o rosto.

A resolução se perdeu em quadrados.

Abriu outra câmera.

O mesmo indivíduo surgiu dois minutos depois, agora sem a sacola, atravessando uma rua paralela.

Onde deixara o objeto?

Ele procurou a passagem do homem nas outras câmeras disponíveis, construiu o percurso, retrocedeu até o momento em que entrara no campo de visão. Vinha de um ponto morto entre dois prédios. A sacola já estava em sua mão.

Não havia sido deixada.

Ainda estava com ele quando desapareceu da última imagem.

Então não era a sacola.

Era o trajeto.

O homem não caminhava para lugar algum.

Circundava.

O Instituto.

Ele recuou o vídeo outra vez.

Avaliou altura, ombros, ritmo, possível idade.

Nenhuma característica definitiva.

Nenhum rosto visível.

Registrou as imagens em uma pasta nova.

Nomeou-a apenas com a data.

Depois desligou o áudio do rádio e permaneceu imóvel.

Alguns dias antes, ele invadira o Instituto para descobrir se Orlando estava prestes a tocar numa estrutura que não compreenderia.

Agora havia outra pergunta.

A estrutura já sabia que ele existia?

A chuva começara antes do amanhecer na costa eslovena e continuava caindo quando o homem entrou no prédio.

Não havia placa na fachada.

A construção ocupava uma esquina discreta, distante das áreas turísticas e das ruas onde os visitantes procuravam cafés, marinas e fotografias do Adriático. O concreto escuro parecia absorver o céu. As janelas refletiam apenas nuvens baixas e os galhos das árvores curvados pelo vento.

O carro parou sob uma cobertura lateral.

O motorista saiu primeiro, abriu um guarda-chuva e contornou o veículo. Quando a porta traseira se abriu, o passageiro já estava colocando as luvas.

Usava um sobretudo cinza-escuro, sapatos sem qualquer marca de uso e um cachecol preto ajustado ao pescoço. Não demonstrou pressa. Caminhou até a entrada com a postura de quem sabia que as portas se abririam antes que precisasse tocá-las.

Abriram.

No saguão, ninguém lhe pediu identificação.

Um segurança apenas abaixou a cabeça.

O homem retirou as luvas enquanto aguardava o elevador. Tinha pouco mais de cinquenta anos, cabelos curtos já tomados pelo branco nas laterais e um rosto que poderia parecer afável se os olhos não permanecessem tão imóveis. Não era grande. Não parecia forte. Nada nele sugeria ameaça, o que fizera com que muitos o subestimassem antes de compreender que a ameaça não estava no que ele podia fazer com as próprias mãos.

Estava no que podia ordenar.

No quarto andar, uma mulher o esperava diante de uma porta de vidro.

— Senhor Novak.

Ele não respondeu ao cumprimento.

Entregou-lhe as luvas.

— Eles chegaram?

— Há vinte minutos.

— Todos?

— Os necessários.

A porta se abriu.

A sala de reuniões era longa, silenciosa e excessivamente limpa. Uma mesa escura ocupava o centro. Não havia quadros, fotografias ou qualquer objeto que revelasse a natureza da empresa oficialmente registrada naquele endereço. Apenas uma tela ampla na parede, sete cadeiras e garrafas de água alinhadas diante de pequenos cadernos pretos.

Seis pessoas já estavam sentadas.

Nenhuma se levantou.

Novak retirou o sobretudo, entregou-o à mulher e ocupou a cadeira na cabeceira. À sua direita, um homem magro fechou o notebook. À esquerda, uma mulher de cabelos ruivos organizou três folhas impressas diante de si. Os demais aguardavam sem conversar.

A chuva batia suavemente nas janelas.

Novak abriu a garrafa de água, serviu-se e tomou um pequeno gole.

— Comecem.

O homem do notebook respirou fundo.

— Perdemos contato com dois operadores no Brasil.

Novak apoiou o copo sobre a mesa.

— Perdemos contato ou eles deixaram de responder?

— Deixaram de responder.

— Portanto, ainda não sabemos se perdemos contato.

O homem hesitou.

— Não.

— Continue.

Uma imagem apareceu na tela. Um mapa do Brasil, ampliado sobre a região Sudeste. Alguns pontos vermelhos marcavam cidades e rotas rodoviárias.

— O último relatório confirmado foi transmitido quatro dias atrás. A movimentação permanecia dentro do previsto. Depois disso, houve uma quebra na rotina de comunicação.

— Técnica?

— Não identificamos falha.

— Prisão?

— Nenhum registro oficial.

— Morte?

— Nenhum corpo relacionado.

Novak olhou para os pontos vermelhos.

— Deserção?

A mulher ruiva respondeu:

— Possível, mas improvável. Um deles tem família sob acompanhamento.

Novak desviou os olhos para ela.

— Todos têm alguma coisa sob acompanhamento.

A mulher não reagiu.

Na tela, surgiu a fotografia de Orlando Nascimento.

Era uma imagem retirada de uma entrevista. Orlando aparecia sentado, ligeiramente voltado para a câmera, com a expressão séria de quem tentava ser preciso num assunto que não permitia precisão.

— Quem é esse homem? — Novak perguntou.

— Orlando Nascimento. Fundador de uma organização brasileira dedicada a casos de desaparecimento.

— Polícia?

— Não.

— Ex-policial?

— Não encontramos vínculo.

— Político?

— Não.

— Rico?

— Não.

Novak permaneceu olhando para a fotografia.

— Então por que estou vendo seu rosto?

O homem do notebook abriu outra imagem. Nora apareceu ao lado de Orlando, saindo de um prédio.

— O Instituto entrou em contato indireto com dois casos associados às nossas rotas.

— Associados ou próximos?

— Um confirmado. Um possível.

— E o confirmado?

— Não avançou.

— Por quê?

— A família retirou a queixa e interrompeu o contato.

Novak tornou a servir-se de água.

— Famílias raramente interrompem o contato sem ajuda.

— Houve pressão local.

— Nossa?

Silêncio.

Novak olhou lentamente para cada pessoa na mesa.

— Nossa?

— Não autorizada — respondeu a mulher ruiva.

O silêncio que se seguiu não tinha surpresa. Tinha cálculo.

Novak recostou-se na cadeira.

— Quem autorizou?

— O operador regional.

— O operador regional que deixou de responder.

— Sim.

— Ele pressionou uma família sem autorização, chamou atenção para um caso que deveria desaparecer dentro da rotina e, em seguida, deixou de responder.

Ninguém acrescentou nada.

Novak tocou o copo com a ponta do indicador.

— Isto não é uma coincidência. É uma sequência.

Na tela, surgiram fotografias da fachada do Instituto, mapas de acesso e imagens retiradas das redes sociais.

— Houve também uma invasão digital — disse o homem magro.

Novak não olhou para ele.

— Ao Instituto?

— Sim.

— Nossa?

— Não.

Pela primeira vez, Novak moveu os olhos com rapidez.

— Tem certeza?

— As assinaturas não correspondem às nossas equipes. O método foi agressivo, mas seletivo. Não houve roubo financeiro, exposição pública ou destruição de arquivos.

— O que foi acessado?

— Casos, procedimentos, relatórios internos, estrutura de segurança e comunicações.

— Por quanto tempo?

— Não sabemos.

— Vocês não sabem quem entrou, por quanto tempo permaneceu nem o que retirou?

O homem magro baixou os olhos.

— Não.

Novak observou novamente a fotografia de Orlando.

— E o Instituto?

— Acredita que a invasão esteja ligada aos desaparecimentos.

— Está?

— Provavelmente.

— Probabilidade é o nome que se dá à ignorância quando ela precisa parecer profissional.

A mulher ruiva aproximou uma das folhas.

— Há outro elemento.

Novak fez um gesto para que continuasse.

— Uma movimentação incomum nas consultas a bases policiais e registros públicos brasileiros. Alguém vem cruzando desaparecimentos, ocorrências, veículos e imagens urbanas.

— O Instituto?

— Não. A capacidade é superior à deles.

— Governo?

— Também não parece.

— Concorrência?

— Não identificamos grupo com interesse naquela região.

— Jornalista?

— Improvável.

Novak voltou-se completamente para ela.

— Não existe improvável. Existe identificado e não identificado.

— Não identificado.

Ele assentiu.

A tela escureceu por alguns segundos e passou a exibir uma sequência de imagens granuladas. Ruas. Esquinas. Fachadas. Veículos. Pessoas captadas à distância.

Novak assistiu sem demonstrar emoção.

— Alguém está observando o Instituto — disse a mulher.

— Nós também.

— Não somos nós nessas imagens.

A sequência parou num homem carregando uma sacola.

O mesmo homem que, horas antes, fora isolado nas gravações pelo invasor.

A resolução era ruim. O rosto não podia ser reconhecido.

Novak aproximou o corpo da mesa.

— Quem enviou isso?

— Uma fonte local.

— Confiável?

— Até hoje.

— Até hoje não é uma resposta.

— Não conseguimos confirmar a identidade.

Novak observou o homem congelado na tela.

— Ele sabe que foi filmado?

— Não temos como saber.

— Todos sabem que podem ser filmados. A pergunta é se ele queria ser filmado.

Ninguém respondeu.

Novak levantou-se.

Caminhou até a janela.

Do quarto andar, via-se uma rua quase vazia, carros avançando devagar sobre o asfalto molhado e pessoas protegendo o rosto da chuva. Ele colocou as mãos nos bolsos da calça e permaneceu olhando para fora por tempo suficiente para que os demais começassem a perceber que a reunião não terminaria com instruções comuns.

— Durante anos — disse ele —, o Brasil foi útil porque sua desordem era previsível. Muitas instituições, pouca comunicação entre elas. Muitos registros, pouca integração. Muitas famílias procurando, pouca gente procurando junto. O sistema produz ruído suficiente para esconder quase tudo.

Ninguém se moveu.

— O problema começa quando alguém percebe que os casos não são separados.

Virou-se para a mesa.

— Este homem percebeu?

Na tela, Orlando continuava encarando a câmera de uma entrevista antiga.

— Ainda não sabemos — respondeu a mulher ruiva.

— E a mulher?

A fotografia de Nora reapareceu.

— Ela desconfia mais do que ele.

Novak voltou ao seu lugar.

— Não. Ela demonstra mais desconfiança. Não é a mesma coisa.

Sentou-se.

— Orlando Nascimento acredita que está procurando pessoas. Talvez ainda não tenha entendido que está procurando um sistema.

O homem magro abriu uma nova página no notebook.

— Podemos encerrar a operação regional.

Novak olhou para ele.

— E confirmar que há uma operação regional?

— Podemos reduzir atividade.

— E permitir que interpretem a redução como resposta?

— Podemos eliminar os dois.

Novak permaneceu em silêncio.

A sala pareceu ficar menor.

— Quais dois? — perguntou.

O homem magro não respondeu imediatamente.

— Orlando e a mulher.

Novak juntou as mãos diante de si.

— Homens incompetentes recorrem à morte porque ela parece resolver rapidamente aquilo que não foram capazes de compreender. Depois descobrem que cadáveres também falam.

— Eles podem continuar avançando.

— Então precisamos saber para onde.

— E se descobrirem a estrutura?

— Ninguém descobre uma estrutura. Descobre-se uma parte dela e imagina-se o restante. O medo está na imaginação, não na descoberta.

A mulher ruiva observou as imagens.

— Há uma palestra marcada.

Novak dirigiu-lhe os olhos.

— Onde?

— Uma faculdade de Direito. Orlando e Nora falarão sobre desaparecimentos, falhas institucionais e cooperação entre organizações civis e autoridades.

— Quando?

— Depois de amanhã.

— Público?

— Sim.

— Imprensa?

— Provavelmente.

— Segurança?

— Básica.

Novak ficou alguns segundos em silêncio.

— Quem mais sabe?

— A divulgação é aberta.

Ele olhou mais uma vez para o homem da sacola.

Depois para Orlando.

Depois para Nora.

— Reserve meu voo.

O homem magro ergueu a cabeça.

— Para o Brasil?

— Há outro?

— Posso enviar alguém.

— Já enviamos pessoas.

— O senhor não precisa ir pessoalmente.

Novak fechou a garrafa de água.

— Quando duas variáveis desconhecidas aparecem no mesmo território, alguém precisa descobrir se pertencem à mesma equação.

Levantou-se.

A mulher trouxe seu sobretudo.

— E os operadores desaparecidos? — perguntou a ruiva.

Novak vestiu o casaco sem pressa.

— Se estiverem vivos, encontraremos o erro.

— E se estiverem mortos?

Ele ajustou o punho da camisa.

— Então encontraremos quem aprendeu a matar os nossos.

Saiu da sala.

A chuva ainda tocava as janelas quando a porta se fechou.

Nenhum dos seis presentes falou durante alguns segundos.

Na tela, a fotografia de Orlando permaneceu aberta. Ao lado dela, Nora. E, num terceiro quadro, o homem da sacola, sem nome, sem rosto e sem qualquer indicação de que já sabia estar sendo observado.

Na casa da rua estreita, o relógio marcava 05h42 quando o homem percebeu a alteração.

Não veio das câmeras.

Não veio do rádio.

Veio de uma consulta.

Uma sequência breve de acessos a dados públicos, hospedagens, programação acadêmica e rotas internacionais. Consultas comuns quando observadas isoladamente. Juntas, obedeciam a um padrão.

Alguém procurara a agenda de Orlando.

Alguém procurara a palestra.

Alguém procurara voos para o Brasil.

O homem inclinou-se para mais perto da tela.

As informações estavam protegidas por camadas suficientes para impedir uma identificação imediata, mas não para esconder a direção.

Europa Central.

Adriático.

Eslovênia.

Ele abriu um mapa.

Depois outro.

Buscou nomes empresariais, conexões aéreas, históricos de viagens, empresas de fachada, registros comerciais e listas de passageiros acessíveis por vias que nenhuma autoridade admitiria serem acessíveis.

Nada conclusivo.

Apenas fragmentos.

Mas fragmentos eram como desaparecidos.

Só pareciam isolados enquanto ninguém os colocava lado a lado.

O homem abriu novamente a fotografia do menino de uniforme azul.

Desta vez, ampliou-a.

O sorriso da criança não chegava a ser completo. Havia nele alguma timidez, ou talvez apenas impaciência por estar sendo fotografado antes da escola.

O homem tocou a imagem com dois dedos.

Não como quem acaricia.

Como quem confirma que algo ainda existe.

Depois fechou a fotografia.

Na tela principal, a página da palestra permanecia aberta.

Faculdade de Direito.

Auditório principal.

Orlando Nascimento e Nora.

Dois dias.

O homem desligou o rádio.

Pela primeira vez naquela madrugada, levantou-se da cadeira.

Seus joelhos estalaram. A coluna demorou um instante a se endireitar. Caminhou até um armário estreito no canto do cômodo, abriu a porta e afastou duas caixas. Atrás delas havia uma mochila preta.

Colocou-a sobre a mesa.

Abriu o zíper.

Dentro, havia documentos, dinheiro, um boné, uma câmera pequena, dois celulares e uma arma envolvida em tecido.

Ele retirou a arma.

Verificou o carregador.

Colocou-a de volta.

No monitor, a imagem do Instituto Presença foi substituída pelo mapa do trajeto até a faculdade.

O homem imprimiu o endereço.

Dobrou o papel duas vezes.

Guardou-o no bolso.

Quando apagou as telas, o cômodo mergulhou numa escuridão quase completa. Durante alguns segundos, apenas as pequenas luzes dos equipamentos permaneceram acesas, vermelhas e verdes, como olhos que se recusavam a dormir.

Ele abriu a porta.

Parou antes de sair.

Olhou para trás.

Na tela que julgara ter desligado, uma única janela ainda permanecia ativa.

Uma mensagem havia aparecido.

Sem remetente.

Sem identificação.

Apenas seis palavras:

NÓS TAMBÉM SABEMOS QUE VOCÊ EXISTE.

O homem não se aproximou.

Não tocou no teclado.

Não tentou rastrear a origem.

Ficou parado diante da frase, imóvel, enquanto a luz do monitor recortava sua silhueta no escuro.

Então a mensagem desapareceu.

A tela apagou-se sozinha.

E, pela primeira vez em muitos anos, ele sentiu algo que já não se permitia confundir com medo.

Sentiu que não estava mais caçando sozinho.

Alguém começara a caçá-lo.

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