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“Se eu quisesse apenas vender livros, talvez eu estivesse fazendo outra coisa. A Vetor não nasceu para vender páginas. Nasceu para provocar presença.”

  • Foto do escritor: Jânsen Leiros Jr.
    Jânsen Leiros Jr.
  • 16 de abr.
  • 8 min de leitura

Atualizado: 23 de abr.

Entrevista | Chiara Voss e Jânsen Leiros Jr. no Escritório de Produção de SP da Vetor


No Escritório de Produção de São Paulo, o EPSP, a atmosfera era a de sempre: discrição, movimento contínuo e uma elegância funcional que parecia esconder, sob a aparência corporativa, uma usina narrativa em plena atividade. Foi ali, em uma das salas de reunião envidraçadas da Vetor, que Chiara Voss, da Link Web, sentou-se diante de Jânsen Leiros Jr., fundador da casa, para uma conversa que prometia ser cordial — mas nunca confortável.

Chiara não decepcionou. Com seu estilo já conhecido, direto, preciso e tecnicamente incômodo, ela levou à mesa as perguntas que muitos fariam, mas poucos teriam coragem de formular daquela maneira: por que disponibilizar gratuitamente conteúdo literário que, em outras circunstâncias, poderia render cifras altas no mercado editorial? Havia ali desprezo pelo mercado? Ressentimento? Estratégia disfarçada? Provocação deliberada?

Jânsen, por sua vez, não recuou. Respondeu a cada pergunta sem se esconder atrás de abstrações, sem fingir humildades fáceis e sem transformar convicção em pose. O resultado foi uma entrevista tensa, inteligente e surpreendentemente leve ao final — justamente porque, ao longo da conversa, ficou claro que Chiara não buscava demolir o entrevistado, mas expor o que nele havia de mais verdadeiro.

Chiara Voss entrevista Jânsen Leiros Jr.

EPSP — Escritório de Produção de São Paulo | Vetor

Chiara Voss: Jânsen, eu quero começar pela pergunta mais desconfortável, porque ela está na cabeça de muita gente. A Vetor oferece gratuitamente conteúdos literários que, em condições normais, poderiam ser vendidos por valores consideráveis no mercado editorial. Então vamos direto ao ponto: por quê?

Jânsen Leiros Jr.: Porque o meu ponto de partida nunca foi simplesmente vender um produto. Foi construir uma presença. A Vetor não nasceu apenas como veículo de publicação. Ela nasceu como linguagem, como casa conceitual, como espaço de investigação da condição humana. Eu poderia, sim, tentar encaixar essas obras no caminho tradicional. Mas a minha pergunta sempre foi outra: como fazer essas histórias chegarem às pessoas com o máximo de integridade, sem submetê-las, já de saída, ao filtro do encaixe comercial?


Chiara Voss: Mas o mercado existe exatamente para isso também: para levar obras ao público. Quando o senhor dribla esse caminho e oferece material gratuitamente, o senhor parece estar dizendo que o sistema inteiro falhou.

Jânsen Leiros Jr.: Não. Eu estaria dizendo isso se estivesse fazendo um manifesto contra editoras. E não estou. O mercado editorial tem sua lógica, sua importância e sua função. O problema é que ele não pode ser a única porta de entrada para a literatura contemporânea. Nem todo projeto nasce para pedir licença ao mercado antes de existir. Alguns nascem para existir e pronto. A Vetor é um pouco isso.


Chiara Voss: Mas há quem diga que isso soa como afronta. Como uma espécie de gesto calculado para abalar o mercado editorial. Quase um “não preciso de vocês”.

Jânsen Leiros Jr.: Isso seria vaidade demais, e eu tenho coisas mais importantes para fazer do que alimentar esse tipo de fantasia. A Vetor não existe para afrontar ninguém. Existe para propor outra lógica de circulação, de construção de público e de amadurecimento de obra. Não se trata de dizer “não preciso de vocês”. Trata-se de dizer “não preciso começar por vocês”.


Chiara Voss: Vou endurecer um pouco mais, então. Há quem veja uma operação dessas e pense: isso não fecha. Produção, site, identidade, tempo, estrutura, tudo isso custa. Quando alguém entrega de graça o que poderia vender, a suspeita aparece. Então eu faço a pergunta que alguns fariam cochichando: isso é lavagem de dinheiro?

Jânsen Leiros Jr.: Não. E eu respondo sem nenhuma indignação performática porque a pergunta, embora dura, é legítima dentro da lógica pública. Quando algo foge demais do padrão, as pessoas tentam encontrar o truque. O problema é que nem tudo o que escapa do padrão é fraude; às vezes é só convicção. A Vetor é investimento de construção, de posicionamento, de linguagem e de patrimônio simbólico. Nem tudo precisa retornar no primeiro movimento para fazer sentido econômico e estratégico no longo prazo.


Chiara Voss: Então é estratégia?

Jânsen Leiros Jr.: É estratégia, mas não no sentido vulgar da palavra. Não é isca. Não é truque promocional. É compreensão de que, antes de monetizar uma obra, às vezes é preciso consolidar um universo, uma voz, uma comunidade e uma credibilidade. Há projetos que morrem tentando vender cedo demais o que ainda nem foi plenamente percebido.


Chiara Voss: O senhor está falando de visão de longo prazo. Mas o senhor entende que, para muita gente, isso também pode soar como romantização? Porque no fim das contas, escritores precisam viver. Projetos precisam se sustentar. Beleza conceitual não paga conta.

Jânsen Leiros Jr.: Perfeitamente. E é por isso que eu tomo cuidado para não transformar ideal em ingenuidade. Eu não defendo precariedade como virtude. Não acho que artista deva viver de aplauso. O que estou dizendo é outra coisa: existem formas diferentes de construir sustentabilidade. A venda direta e imediata de livros é uma delas. Não é a única. A Vetor trabalha com arquitetura de marca, construção de audiência, posicionamento narrativo, expansão transmediática e valor institucional. O erro é imaginar que só existe inteligência econômica quando ela vem com cara de prateleira.


Chiara Voss: Deixe-me colocar isso numa linguagem menos elegante. O senhor acredita que pode ganhar mais, no futuro, justamente por abrir mão de ganhar agora?

Jânsen Leiros Jr.: Em alguns casos, sim. Mas nem essa é a pergunta principal. A pergunta principal é: ganhar o quê? Porque há ganhos que o mercado mede bem e há outros que ele mede mal. Alcance qualificado, vínculo real com o público, autoridade autoral, densidade de marca, liberdade de linguagem, posicionamento cultural — tudo isso vale muito. E, quando bem construído, também se converte em valor econômico depois. Só que de um modo mais robusto.


Chiara Voss: Vamos ao ponto psicológico, então. Existe alguma mágoa do mercado editorial aí?

Jânsen Leiros Jr.: Não. Existe lucidez. Mágoa paralisa ou azeda. E eu não tenho tempo para azedume. O que eu tenho é percepção. Eu sei que o mercado editorial, como qualquer mercado, tende a operar por zonas de previsibilidade, tendência, viabilidade, embalagem e risco calculado. Isso não é escândalo. É funcionamento. Mas a minha vocação nunca foi me adaptar em excesso para caber. Minha vocação sempre foi construir com mais liberdade.


Chiara Voss: Então é falsa a ideia de que o senhor teria sido desprezado por editoras renomadas e decidiu “dar o troco”?

Jânsen Leiros Jr.: É uma leitura sedutora, porque simplifica tudo numa narrativa de revanche. E toda narrativa de revanche tem apelo. Mas não. Eu não construí a Vetor como troco. Troco é reação. A Vetor é proposição. Ela não nasce de ferida; nasce de visão.


Chiara Voss: Nunca houve frustração?

Jânsen Leiros Jr.: Claro que houve. Quem escreve, pensa e tenta construir algo neste país sem experimentar frustração está provavelmente distraído. O ponto é o que se faz com ela. Há quem transforme frustração em ressentimento. Eu preferi transformá-la em arquitetura.


Chiara Voss: Essa resposta foi boa.

Jânsen Leiros Jr.: Obrigado. Eu também gostei dela.


Chiara Voss: Mas eu ainda não terminei. Há uma crítica possível ao seu modelo: ele pode, sem querer, reforçar a ideia de que literatura deve ser gratuita, abundante, sempre disponível, quase sem lastro de trabalho. O senhor não teme colaborar para a desvalorização da produção literária?

Jânsen Leiros Jr.: Temeria, se estivesse defendendo a gratuidade como norma moral. Não estou. Nunca disse que literatura não deva ser paga. Nunca disse que escritores não devam ser remunerados. O que estou fazendo é uma escolha de circulação para um projeto específico, dentro de uma estratégia específica, com objetivos específicos. Não é doutrina. É desenho. E, aliás, talvez uma das maiores formas de valorizar a literatura hoje seja justamente voltar a fazê-la disputar atenção real no imaginário das pessoas, e não só espaço de compra.


Chiara Voss: Então, para o senhor, o gesto de publicar gratuitamente não é desvalorização. É reposicionamento.

Jânsen Leiros Jr.: Exatamente. É dizer: “antes de pedir que você compre, eu quero que você veja, entre, reconheça, habite”. A Vetor trabalha muito com essa ideia de presença. De vitrine aberta. De processo partilhado. Isso não diminui a obra. Pelo contrário: exige que ela se sustente mais.


Chiara Voss: Vou lhe devolver uma crítica que ouvi recentemente: “isso tudo é bonito, mas parece projeto de quem quer ser maior do que editora, maior do que selo, maior do que escritor”. O senhor quer fundar o quê, exatamente?

Jânsen Leiros Jr.: Uma linguagem com casa própria. Se isso parecer grande demais, paciência. O pequeno demais também já fracassou muito. A Vetor não quer ser vaidosamente maior do que ninguém. Quer apenas não nascer amputada. Há histórias que pedem mais do que publicação. Pedem atmosfera, continuidade, visualidade, pensamento, bastidor, universo. Eu não estou tentando ser maior do que o livro. Estou tentando respeitar tudo o que determinadas histórias exigem para existir por inteiro.


Chiara Voss: O senhor fala como alguém que vê a obra quase como ecossistema.

Jânsen Leiros Jr.: Porque eu vejo.


Chiara Voss: E o lucro?

Jânsen Leiros Jr.: Não é pecado. Nunca foi. O problema é quando ele vira critério único de legitimação. Aí o pensamento encolhe, a linguagem empobrece e a coragem desaparece. Eu não sou contra lucro. Sou contra subordinar a vocação inteira de uma obra ao tipo mais raso de cálculo.


Chiara Voss: Então o senhor se considera um idealista?

Jânsen Leiros Jr.: Não. Idealista demais às vezes não termina nada. Eu me considero obstinado. E talvez suficientemente lúcido para entender que há momentos em que o mais prático é justamente não obedecer ao script mais óbvio.


Chiara Voss: Agora eu vou lhe fazer uma pergunta pessoal, e o senhor decide o quanto quer responder. Há algo, na sua história com a palavra, com a escrita, com a comunicação, que torne impossível para o senhor tratar literatura apenas como produto?

Jânsen Leiros Jr.: Sim. A palavra, para mim, nunca foi apenas ferramenta. Ela sempre foi lugar de elaboração, de resistência, de compreensão e de travessia. Eu venho de um olhar muito atravessado por teologia, filosofia, observação humana, jornalismo, memória e conflito interior. Para mim, escrever nunca foi empacotar conteúdo. Foi tentar arrancar sentido do que parece disperso. Então, naturalmente, eu não conseguiria reduzir tudo isso a uma lógica exclusivamente comercial sem perder algo essencial do próprio impulso que me move.


Chiara Voss: O senhor diria que a Vetor é, então, um gesto de liberdade?

Jânsen Leiros Jr.: Sim. Mas não daquela liberdade adolescente que se acha obrigada a desprezar toda estrutura. É uma liberdade responsável. Estruturada. Pensada. Custosa. Uma liberdade que sabe o preço de existir e, ainda assim, escolhe existir.


Chiara Voss: Eu preciso admitir: o senhor não fugiu de nenhuma.

Jânsen Leiros Jr.: Eu avisei.


Chiara Voss: Avisou nada. O senhor veio com cara de quem talvez tentasse escapar por uma tangente poética em algum momento.

Jânsen Leiros Jr.: Chiara, com você na mesa, tangente poética é suicídio.


Chiara Voss: Finalmente uma frase honesta.

Jânsen Leiros Jr.: As outras também foram.


Chiara Voss: Foram. Infelizmente para mim, foram.

(Chiara sorri pela primeira vez com menos contenção. Fecha as fichas sobre a mesa, cruza o olhar com o entrevistado e muda sutilmente o tom.)

Chiara Voss: Para encerrar: depois de tudo isso, como o senhor resumiria, sem jargão e sem manifesto, a razão de oferecer gratuitamente parte daquilo que poderia render muito dinheiro?

Jânsen Leiros Jr.: Porque eu quero que essas histórias encontrem primeiro seu lugar no mundo, antes de encontrar seu preço.


Chiara Voss: Essa eu não vou nem discutir. Está ótima.

Jânsen Leiros Jr.:Milagre.


Chiara Voss: Não abuse. Eu continuo fazendo perguntas difíceis.

Jânsen Leiros Jr.: E eu continuo vindo.

Ao final da conversa, o que permaneceu no ambiente não foi a sensação de embate, mas a de precisão. Chiara Voss fez exatamente o que se espera dela: retirou da entrevista toda possibilidade de conforto automático. E Jânsen, sem ceder à tentação da defesa emocional ou da abstração ornamental, sustentou a coerência de um projeto que, goste-se ou não, se propõe a existir fora das rotas mais previsíveis.

Foi justamente aí que a entrevista encontrou sua melhor forma. Não no confronto em si, mas no esclarecimento produzido por ele. Chiara saiu com respostas consistentes. Jânsen saiu sem precisar negar o risco de sua escolha. E o público, este sim, ganhou o melhor da conversa: a chance de perceber que, às vezes, por trás do que parece improvável demais para ser legítimo, existe apenas alguém decidido a construir de outro modo.

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